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quarta-feira, setembro 24, 2003

É inacreditável. Todos ouviram falar da história, eu lembrar-me-ei dela para sempre mas quero contá-la para que as forças da net a guardem em lugar dedicado: durante este Verão, nos Açores, o governo regional pediu ajuda ao governo central, nomeadamente ao instituto de conservação da natureza (ou coisa que o valha) para deslocar um grupo de animais (tigres, leões etc.) de um zoo ilegal para o zoo de Lisboa. Foi enviada uma equipe, destacada pelo Estado, para efectuar o transporte. Chegados ao zoo ilegal um homem foi escolhido para anestesiar os animais. Paremos um pouco para reconhecer a delicadeza deste processo – no ser humano, a anestesia geral é dada por um anestesista, ou seja, um médico especializado no assunto, nem sequer um médico comum. No animal, na ausência de um anestesista, pelo menos um veterinário. Estupidamente, a pessoa escolhida para o processo foi um electricista...
Um electricista teve acesso a uma anestesia perigosa...
Um electricista decidiu a dosagem...
Um electricista aplicou-a...
Um electricista matou os animais depois de estes passarem por uma agonia atroz.
Nem quero crer nisto mas o pior ainda não chegou.

Mais de dois meses depois, entrevistado na televisão, o presidente do instituto responsável diz que só agora tomou conhecimento do facto e por isso vai demorar dez dias a agir. Quanto mais não seja, pelo facto de alguém lhe ter escondido o facto, já teria motivos suficientes para despedir alguém ainda esta noite... Depois, o senhor engenheiro revelou o inacreditável: o electricista em questão não era formado em veterinária mas tinha experiência no assunto... Experiência? Experiência? Gostava de saber se o senhor engenheiro, presidente do instituto, vai propor ao governo a contratação de endireitas para o hospital, ou bruxos e curandeiros, eles também têm experiência no ramo da “saúde”. Isto é mau demais para ser verdade...

É curioso verificar (Visão nº550) que no computador de um dos assessores de Paulo Portas, a imagem de fundo permanente é uma fotografia do mesmo Paulo Portas com óculos de sol. Que diria Freud de um comportamento destes? Mais interessante ainda, que diria JPP no Abrupto?

terça-feira, setembro 23, 2003

Um anónimo brasileiro enviou-me este mail há dias:

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços,
sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é
meu também". No entanto, passado o efeito do whisky com energético e dos
beijos descomprometidos, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos
consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e
reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.


segunda-feira, setembro 22, 2003

A RTP acabou de emitir uma reportagem sobre ilegalidades cometidas em relação aos animais – compra/venda de animais proibidos, maus-tratos, no fundo, total e completa inoperância no que diz respeito à aplicação da lei.

Lugar comum: se uma lei não é aplicada perde valor, com isso, aqueles que a deviam aplicar perdem valor, com isso, a liberdade, na sociedade, perde valor. Por vezes, os lugares comuns são verdadeiros.

Risco: propagação de ideias extremas e profundamente perigosas no que diz respeito à aplicação de regras irracionais.

Quando a sociedade livre perde força, a irracionalidade (não no sentido romântico do termo) ganha poder.

Uma amiga de longa data tenta, na capital, singrar no mundo do jornalismo. Já não falo com ela há mais de um ano, andamos tão ocupados que, bem... uma parte substancial do mundo terá a infelicidade de entender como se estabelecem estas distâncias entre pessoas tendo como justificação esta ilusão tão bem apanhada de que “estamos ocupados”. De quando em vez vejo-a na TV, de gravador na mão a cobrir o caso da Casa Pia. Trabalha, com todo o gosto do mundo, onde não queria trabalhar; vive em constante insegurança, mais ainda que a minha que sou professor... Sei que ela é brilhante (embora nunca lhe tivesse dito tal coisa) e, como afirmava Sá de Miranda (citado por JPP no Abrupto) “m’espanto às vezes, outras m’envergonho”. Não me espanto e envergonho pelo facto de ela ainda não ter tido (depois de alguns anos) a oportunidade que lhe é devida (pelo menos a oportunidade acho que temos direito), espanto-me e envergonho-me por aqueles que vão ocupando lugares nesse que é um dos maiores centros de decisões da contemporaneidade (não será o maior?): a direcção da opinião dos média. Lembro-me de ver a Manuela Moura Guedes a apresentar aos familiares das vítimas, em primeira mão e (palavra mágica) exclusivo, os mais sórdidos detalhes acerca da morte de soldados portugueses em Timor desculpando-se com o interesse do grande público que, por alguma estranha razão, tinha necessidade de saber como cada pedaço do corpo dos jovens havia sido cortado pelo helicóptero; lembro-me de ver os directos em que a jornalista questiona o médico acerca de uma epidemia, o médico responde que não há epidemia e a jornalista conclui que a epidemia está descontrolada; podia continuar mas, hoje vai dar o telejornal por isso, remeto-me – e àqueles que possam ler isto que escrevo – para esse momento cada vez mais interessante da vida nacional e mundial. Dizia um velho professor meu que, apresentar notícias implica sempre a escolha, por cada uma que aparece, muitas outras ficam na sombra – aceito esta sentença, aliás, não tenho alternativa – todavia, existe um critério para a escolha e estranho é o critério de hoje em que, a não notícia vale mais que a notícia e a opinião não larga a boca de ninguém (é uma espécie de fast-food da notícia: passa a informação e a opinião para que ninguém tenha de pensar).

Mais uma vez morreram pessoas na auto-estrada sem qualquer justificação racional...
Um senhor septuagenário embateu, em contra mão, num outro carro, morrendo e matando...
O jornalista, no canal 1 da RTP convidou alguém para comentar o assunto. A senhora convidada focou a sua atenção na atribuição e renovação das cartas de condução. O jornalista, como é hábito nos nossos dias, resumiu, ignorando completamente aquilo que foi dito e repetindo as ideias da sua própria introdução ao tema: falta de sinalização na auto-estrada.
Para quem foi bem formado por uma escola de condução, será que entrar no sentido correcto na auto-estrada exige sinalização repetida vezes sem conta? Por outro lado, para quê convidar alguém a participar num serviço informativo quando essa pessoa fala dez segundos (respondendo a questões de tempo ilimitado) e tudo aquilo que diz é ignorado, a não ser que concorde com a opinião do jornalista? Uma coisa é certa: a convidada da RTP tocou num ponto que me preocupa bastante – quando eu tirei a carta de condução a formação foi patética e, logo de início, em relação ao atestado médico para conduzir, todo o processo revelou a sua insustentabilidade quando a administrativa da escola de condução me perguntou se eu queria ir ao médico ou preferia que eles tratassem do assunto. A minha resposta foi imediata – tratem vocês disso – pelo que o médico considerou-me apto à condução sem nunca me ver... Nas minhas longas visitas por aquilo que em Lisboa se chama, o Portugal profundo (expressão curiosa que nos permite concluir que Lisboa é o Portugal superficial) descobri aqui e ali casos curiosos de analfabetos que, a troco disto e daquilo, conseguiram a carta de condução. Daí que alguns jovens, para quem a escola só serve para tirar a carta (assim ensinam alguns pais), afirmem convictamente que o estudo é uma espécie de luxo para quem tem pouco que fazer...
Há uma leveza nas relações entre homens que é tão necessária como o ar que nos permite viver, mas uma leveza na relação de algumas instituições com as pessoas, especialmente com os mais novos, que é quase letal para as sociedades...

sexta-feira, setembro 19, 2003

Tenho medo de estar correcto...
Não sei se alguém lembra daquela série fabulosa da BBC, yes prime-minister.
Não sei se alguém se lembra daquele fabuloso sistema de serviços públicos, em completo auto-governo, que transformava a luta do político num jogo diário de avanços e recuos, permissões e concessões, para tentar chegar ao fim do dia e atingir o grande ideal da sua carreira: deixar tudo como havia encontrado no início desse mesmo dia.
Não sei se alguém se lembra das grandes frases, chavões para políticas revolucionárias, que serviam apenas para entreter jornalistas, queimar governantes (que estranhamente iniciavam e atiçavam as fogueiras que os queimavam com a sua própria ineficácia) e contratar mais meia dúzia de pessoas numa atitude que dificilmente pode ser chamada jobs for the boys (já que não há assim tantos boys, nem estes gostam das profissões rasteiras) mas que também não pode ser qualificada de produtiva já que esta gente não passa de mais óleo para um sistema estranhamente bem oleado. Estranho porque, na série, o sistema funcionava, e funcionava muito bem. O grande problema é que este sistema para nada servia, minto, servia para se auto-sustentar – era o reflexo perfeito daquilo que o secretário do ministro apelidava de sociedade compassiva: os contribuintes pagavam para criarem um ambiente de alegria geral na sociedade, dando emprego a tantos que, fora do sistema, teriam uma vida desolada.

Temo que a sátira da BBC possa ser um retrato...
Temo que os governos sirvam para realizarem grandes obras (gastar dinheiro em grandes obras deve ser muito fácil e recompensador, de outra forma, como se poderia explicar o fascínio que os governantes têm por elas...) mas, quando se trata de pessoas, quando se trata daquilo que o corregedor, o juiz de fora, o padre, o professor, o chefe da estação ou almocreve, daquilo que estas pessoas faziam na sociedade rural de outros tempos, os governos sejam completamente ineficazes. O que lhes falta? É estranho, já que, à partida parece que nada lhes falta – têm o poder, têm o dinheiro, têm os motivos, no entanto... nada... nada... A estrada aparece, isso ninguém nega... e aparece o campo de futebol, o hipermercado, muito provavelmente uma piscina e um centro de diversões, mas, por dentro, o estado é sempre o mesmo: indiferente, indiferente a tudo e a todos, uma máquina muito bem oleada que se gere sem interferências alheias. Um dia, voltado à série da BBC, o ministro descobriu que existia um hospital novo, na zona de Londres com 500 funcionários administrativos que trabalhavam afincadamente, todavia, este hospital não tinha um único médico nem um único doente. Questionado sobre esta situação, o secretário do ministro justificou-se afirmando que os doentes só iriam atrapalhar aquela máquina organizativa tão bem construída... Às vezes, parece que o Estado nos olha assim... tudo seria tão bom se o contribuinte contribuísse e não atrapalhasse a máquina...
Tenho medo de estar correcto...

É certo que também abusamos – refiro-me agora a Portugal. Vivemos num país pequeno com recursos limitados (especialmente pelo facto de sermos só dez milhões), por isso não devemos exigir que o nosso país seja capaz de nos dar as mesmas oportunidades que outros, muito maiores e muito mais ricos, oferecem aos seus cidadãos. É claro que não podemos patrocinar a NASA, não podemos nem devemos, essa é uma lição que os estados devem aprender com as formas mais produtivas de gestão. A Mercedes ligou-se à Chrysler para poupar através da não duplicação de funções e, aparentemente, a União Europeia parece que não entendeu esta lição na sua totalidade, continuando a apostar, em muitas áreas, na duplicação de funções, algo completamente ridículo em países tão pequenos como são os que a compõem.

Porém, se é verdade que Portugal (na pessoa daqueles que o conduzem) não pode ser condenado por não oferecer aos seus cidadãos as mesmas oportunidades, em áreas diversas, que outros países oferecem, o mesmo já não se pode dizer em relação à distribuição das oportunidades que o país pode oferecer. Por sermos pequenos, devíamos ter mais cuidado com as riquezas que possuímos. Não temos petróleo nem diamantes, temos melhor, temos pessoas e, algumas delas, brilhantes. Porque será que a fama geralmente (não sempre) só lá fora lhes sorri?
Há oportunidades que nem chegam a existir no nosso país e, nesse caso, quem as deseja tem de rumar ao estrangeiro, mas, quando nós vemos no nosso país um profissional mediano (para não dizer medíocre) o ocupar o lugar de um profissional brilhante que desenvolve um trabalho equivalente no estrangeiro, não deveremos franzir o sobrolho?
Neste ponto as universidades são especialmente culpadas, refugiando-se à sombra de meia dúzia de nomes sonantes que amparam os restantes desconhecidos, não em termos mediáticos mas em termos de produção. Conheço professores do ensino secundário bem mais activos ao nível da investigação, que aqueles que são pagos para investigares e, ocasionalmente, leccionarem uma ou outra cadeira.

quinta-feira, setembro 18, 2003

et vidit Deus lucem quod esset bona et divisit lucem ac tenebras

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